quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Entrevista ao Semanário «O Mirante»




SECÇÃO: Entrevista


Espectáculo dia 3 de Março no cinema S. Jorge em Lisboa para apresentar “À Flor da Pele”



Fadista Joana Amendoeira fala do fado como “um intercâmbio de almas”



Joana Amendoeira nasceu em Santarém a 30 de Setembro de 1982. Começou a cantar em espectáculos aos onze anos de idade. Gravou o primeiro disco aos dezasseis. Agora, aos 24 anos, revela grande segurança e maturidade nos fados do seu quinto CD. À Flor da Pele consolida não só a cantora mas o grupo, porque é de um grupo se trata quando se fala deste trabalho. Pedro Amendoeira na guitarra portuguesa, Pedro Pinhal na viola de fado e Paulo Paz no baixo acústico e contrabaixo. Treze fados que podem ser escutados ao vivo no Teatro S. Jorge em Lisboa, dia 3 de Março.


Neste seu último disco, o quinto da sua carreira, “À Flor da Pele” há sete fados compostos pelos músicos que habitualmente a acompanham. Foi a primeira vez que todos vocês compuseram fados?
Foi efectivamente a primeira vez que compusemos. Foi uma experiência nova que consolida a ideia de que somos um grupo e não uma cantora de fado e o seu grupo de músicos. O disco tem sete fados compostos por nós. Um do Pedro Amendoeira. Três e meio - a outra metade é minha - do Pedro Pinhal e dois do Paulo Paz.


Como é que funcionou esse trabalho de composição?
Trabalhamos juntos há muito tempo. O meu irmão trabalha comigo desde o início. O Pedro Pinhal também está connosco há muitos anos. O Paulo Paz foi o último a entrar mas já está desde o final de 2004. O grupo está consolidado desde essa altura. Fomos crescendo, amadurecendo algumas ideias, pesquisando poemas e sonoridades e o resultado está neste disco, À Flor da Pele. Há nesta altura uma cumplicidade total entre nós, no palco e fora do palco. Não é normal haver um grupo de fados mas no nosso caso é isso que acontece.


Como é o vosso trabalho? Como é o vosso processo criativo? Pensam no público…
Não devemos fazer coisas para mostrar às pessoas. Devemos fazer aquilo que sentimos. Aquilo que a inspiração nos dita. Não podemos estar a pensar nas sensações que vamos provocar nas pessoas. Temos apenas que nos dar de corpo e alma.


Costuma afirmar-se uma defensora do fado tradicional. Como concilia isso com a inovação?
O fado pode evoluir sem ser desvirtuado. Sem se afastar da sua essência. As inovações enriquecem-no.


O fado não é apenas voz, guitarra e viola?
O som de um violoncelo; de um contrabaixo; de um piano, podem enriquecer o fado tradicional. No meu caso isso já aconteceu. Nomeadamente no disco Joana Amendoeira. Nessa altura tivemos a participação de um violoncelista, por exemplo.


Não é uma purista?
Existem umas duzentas músicas tradicionais. Considero-me tradicionalista por gostar de cantar músicas antigas mas a par disso defendo a criação de novas sonoridades. É possível criar coisas novas respeitando o essencial. O fado Joana que integra este disco e que foi um presente do mestre Fontes Rocha é um bom exemplo. Ele criou um novo fado utilizando a estrutura musical tradicional. É muito simples e é novo.


Como foi isso? Não sente que é muito jovem para ter um fado Joana? Ele tinha falado nisso?
Nós conhecemo-nos há vários anos. Encontramo-nos

semanalmente no Clube de Fado. Eu para cantar e ele para tocar. E estabeleceu-se uma grande amizade e cumplicidade entre nós. Eu admiro-o imenso. Receber aquele presente fez-me muito feliz. Ele criou um novo fado utilizando a estrutura musical tradicional do fado. É um fado muito simples e é novo sem deixar de ser tradicional.


O Fontes Rocha disse-lhe alguma coisa especial quando lhe mostrou a música?
Especial foi o gesto. Apresentou-me a música e disse que era o Fado Joana. Tão simples como isso. Tão simples como costumam ser os grandes mestres como ele é.


O Fado Joana passa a ser uma espécie de cartão de visita seu a partir de agora?
Não estou sempre a falar disso. É uma coisa entre mim e ele. Uma música que reflecte a relação de cumplicidade e amizade que há entre nós, mais nada.


A Joana canta em público desde os 11 anos de idade e o seu primeiro disco saiu em 1998, tinha na altura 16 anos. Ainda se revê nessa fase da sua carreira?
Eu tenho um percurso e não rejeito nenhum caminho andado mas os discos de 98 (Olhos Garotos) e 2000 (Aquela Rua) são efectivamente discos de adolescente. Nessa altura eu estava ainda muito ligada às minhas referências. Amália, Teresa Tarouca, etc. O primeiro disco, o disco da minha maturidade foi o Joana Amendoeira (2003).


O seu destino é ser fado?
O fado pode despertar numa pessoa mais tarde ou mais cedo mas só se houver esse talento essa vocação dentro de si. No meu caso foi aos 6 anos de idade. Não houve ninguém a pressionar-me para cantar. Foi uma coisa perfeitamente natural. E tenho ouvido outras histórias do género referentes a outros fadistas.


O que procura na vida?
Eu sinto necessidade de cantar. Quando estou alguns dias sem cantar já não me sinto bem. Preciso de cantar. De ouvir cantar. O que busco constantemente são novas formas de me exprimir. De me dar aos outros através do fado. É esse o meu objectivo. É desta forma que me realizo.


Não canta outras músicas?
Raramente. Participei num programa há pouco tempo em que cantei música brasileira e uma música em francês do Jacques Brel (Ne me quitte pas). Adorei cantar, principalmente o Ne me quitte pas, que é uma música fantástica, mas quando canto fado é que me sinto realizada. Nessa altura sinto algo mágico.


A sua beleza física é uma ajuda ou exige-lhe um esforço suplementar para conseguir provar que é muito mais que uma mulher bonita?
Não costumo pensar nisso. Ajo naturalmente. Canto fado e procuro cantar cada vez melhor. O resto não me preocupa. Apenas penso na forma como transmito o que faço aos outros. Não tenho que provar mais nada pelo facto de ser bonita.


Quando canta consegue abstrair-se de tudo o resto? Acontece-lhe deixar-se levar a mundos diferentes através das canções, abandonando momentaneamente o palco?
Quando estou a cantar há alturas em que entro por completo no mundo interior das músicas. Depende de cada uma delas. Dos sentimentos que transmitem. Há músicas intensas em que me abandono por completo. Em que me entrego. Há outras mais alegres em que gosto de estar com o público. Num palco estamos mais distantes do público do que numa casa de fados, por exemplo mas isso não impede momentos de partilha total entre artistas e público. Momentos em que nós nos damos e em que o público também se entrega por completo. E o fado quando é fado é um intercâmbio de almas. Quando isso acontece é fantástico.


Já lhe aconteceu emocionar-se em palco?
Acontece-me com alguma frequência. A intensidade por vezes é grande. Há um enorme desgaste emocional em determinadas alturas. Os meus espectáculos são agora mais intensos porque estou a evoluir e eu sinto que me entrego cada vez mais. Isso é bom. É desgastante mas é bom. É um sinal de maturidade e é compensador.


Começou a cantar muito cedo. Tem agora 24 anos e já fala em maturidade. Cresceu muito em pouco tempo?
Cresci no tempo certo. Foi um crescimento e um amadurecimento que considero normais. Mas na realidade há alturas em que sinto ter mais idade.


Tem tido muitos convites para cantar no estrangeiro. E não são os tradicionais espectáculos para emigrantes. Como interpreta isso?
É verdade. Tenho tido muitas solicitações. Por todo o mundo há pessoas completamente apaixonadas pelo fado. Há um grande interesse. Há uma grande curiosidade. A globalização acaba por nos obrigar a todos a dar mais atenção ao que é único. Àquilo que transmite a identidade de um povo. E o fado faz parte da nossa identidade. É um dos nossos sinais distintivos num mundo cada vez mais igual. Eu própria sinto curiosidade em relação a outras músicas. O ano passado, por exemplo, estive na Noruega num festival que reuniu mais de duzentos músicos de todo o Mundo. Isso enriquece-nos interiormente e culturalmente.


Qual é a sua relação com os estúdios de gravação?
O fado ao vivo ganha muito. O fado vive muito do momento. Da improvisação. Do ambiente que se cria. Há sempre uma partilha diferente. No estúdio estamos nós, o técnico, o produtor. Tentamos fazer o máximo em termos das nossas almas. Temos que fechar os olhos e procurar viajar até outros mundos mas ao vivo é muito mais fácil. Mais rico. Mais intenso.


Acabou o fado no masculino? Os homens que cantam o fado não têm tanta atenção dos meios de comunicação, dos programadores das salas de espectáculo, dos estúdios. A que atribui isso?
O facto de haver menos homens a cantar fado pode ter a ver com a imagem. Acho que os promotores de espectáculos não pensam apenas nas vozes porque há vozes masculinas fantásticas no mundo do fado. Acho que apostam também na beleza feminina e em tudo o que lhe está associado – vestidos, maquilhagem, etc - como forma de atrair público às salas. Devem considerar que um espectáculo com uma mulher se torna mais apelativo, não sei. Já me aconteceu falar com estrangeiros que estão convencidos que o fado só é cantado por mulheres.


Tem alguém que lhe desenha os vestidos para os espectáculos?
Tenho alguns contactos esporádicos com pessoas que trabalham no mundo da moda mas muitas vezes sou eu própria que tenho ideias para certos vestidos.


O seu guarda-roupa extra-profissional, digamos assim, é grande?
Sim, tenho um razoável guarda-roupa. Gosto muito. Tenho algum cuidado com a forma como me apresento. É algo natural.


O que aconteceu ao seu curso de antropologia? Ficou congelado?
Ficou congelado e não sei se o vou conseguir descongelar alguma vez. A minha actividade profissional tem vindo a aumentar e é impossível continuar os estudos. Ainda tentei conciliar as duas coisas mas tive que desistir. Não conseguia acompanhar as aulas, havia espectáculos que coincidiam com exames. Como gosto de fazer as coisas com pés e cabeça, pus o curso de lado. Todos temos que fazer opções e isso também aconteceu comigo.


Qual é a sua actual relação com Santarém?
Não tenho muito tempo para vir a Santarém mas Santarém tem um lugar especialíssimo no meu coração. É a terra onde nasci e onde cresci. Onde fui e sou feliz. Não há medida para descrever o que sinto por Santarém.


Para além do Fado Joana também vai ter um Fado Santarém?
Não sei se vou ter um Fado Santarém mas concerteza que algum dia hei-de compor algo inspirado neste meu universo. Santarém, o Ribatejo…

Entrevista de Alberto Bastos


Semanário O Mirante, 21/02/2007

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