quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Entrevista ao Semanário «O Mirante»




SECÇÃO: Entrevista


Espectáculo dia 3 de Março no cinema S. Jorge em Lisboa para apresentar “À Flor da Pele”



Fadista Joana Amendoeira fala do fado como “um intercâmbio de almas”



Joana Amendoeira nasceu em Santarém a 30 de Setembro de 1982. Começou a cantar em espectáculos aos onze anos de idade. Gravou o primeiro disco aos dezasseis. Agora, aos 24 anos, revela grande segurança e maturidade nos fados do seu quinto CD. À Flor da Pele consolida não só a cantora mas o grupo, porque é de um grupo se trata quando se fala deste trabalho. Pedro Amendoeira na guitarra portuguesa, Pedro Pinhal na viola de fado e Paulo Paz no baixo acústico e contrabaixo. Treze fados que podem ser escutados ao vivo no Teatro S. Jorge em Lisboa, dia 3 de Março.


Neste seu último disco, o quinto da sua carreira, “À Flor da Pele” há sete fados compostos pelos músicos que habitualmente a acompanham. Foi a primeira vez que todos vocês compuseram fados?
Foi efectivamente a primeira vez que compusemos. Foi uma experiência nova que consolida a ideia de que somos um grupo e não uma cantora de fado e o seu grupo de músicos. O disco tem sete fados compostos por nós. Um do Pedro Amendoeira. Três e meio - a outra metade é minha - do Pedro Pinhal e dois do Paulo Paz.


Como é que funcionou esse trabalho de composição?
Trabalhamos juntos há muito tempo. O meu irmão trabalha comigo desde o início. O Pedro Pinhal também está connosco há muitos anos. O Paulo Paz foi o último a entrar mas já está desde o final de 2004. O grupo está consolidado desde essa altura. Fomos crescendo, amadurecendo algumas ideias, pesquisando poemas e sonoridades e o resultado está neste disco, À Flor da Pele. Há nesta altura uma cumplicidade total entre nós, no palco e fora do palco. Não é normal haver um grupo de fados mas no nosso caso é isso que acontece.


Como é o vosso trabalho? Como é o vosso processo criativo? Pensam no público…
Não devemos fazer coisas para mostrar às pessoas. Devemos fazer aquilo que sentimos. Aquilo que a inspiração nos dita. Não podemos estar a pensar nas sensações que vamos provocar nas pessoas. Temos apenas que nos dar de corpo e alma.


Costuma afirmar-se uma defensora do fado tradicional. Como concilia isso com a inovação?
O fado pode evoluir sem ser desvirtuado. Sem se afastar da sua essência. As inovações enriquecem-no.


O fado não é apenas voz, guitarra e viola?
O som de um violoncelo; de um contrabaixo; de um piano, podem enriquecer o fado tradicional. No meu caso isso já aconteceu. Nomeadamente no disco Joana Amendoeira. Nessa altura tivemos a participação de um violoncelista, por exemplo.


Não é uma purista?
Existem umas duzentas músicas tradicionais. Considero-me tradicionalista por gostar de cantar músicas antigas mas a par disso defendo a criação de novas sonoridades. É possível criar coisas novas respeitando o essencial. O fado Joana que integra este disco e que foi um presente do mestre Fontes Rocha é um bom exemplo. Ele criou um novo fado utilizando a estrutura musical tradicional. É muito simples e é novo.


Como foi isso? Não sente que é muito jovem para ter um fado Joana? Ele tinha falado nisso?
Nós conhecemo-nos há vários anos. Encontramo-nos

semanalmente no Clube de Fado. Eu para cantar e ele para tocar. E estabeleceu-se uma grande amizade e cumplicidade entre nós. Eu admiro-o imenso. Receber aquele presente fez-me muito feliz. Ele criou um novo fado utilizando a estrutura musical tradicional do fado. É um fado muito simples e é novo sem deixar de ser tradicional.


O Fontes Rocha disse-lhe alguma coisa especial quando lhe mostrou a música?
Especial foi o gesto. Apresentou-me a música e disse que era o Fado Joana. Tão simples como isso. Tão simples como costumam ser os grandes mestres como ele é.


O Fado Joana passa a ser uma espécie de cartão de visita seu a partir de agora?
Não estou sempre a falar disso. É uma coisa entre mim e ele. Uma música que reflecte a relação de cumplicidade e amizade que há entre nós, mais nada.


A Joana canta em público desde os 11 anos de idade e o seu primeiro disco saiu em 1998, tinha na altura 16 anos. Ainda se revê nessa fase da sua carreira?
Eu tenho um percurso e não rejeito nenhum caminho andado mas os discos de 98 (Olhos Garotos) e 2000 (Aquela Rua) são efectivamente discos de adolescente. Nessa altura eu estava ainda muito ligada às minhas referências. Amália, Teresa Tarouca, etc. O primeiro disco, o disco da minha maturidade foi o Joana Amendoeira (2003).


O seu destino é ser fado?
O fado pode despertar numa pessoa mais tarde ou mais cedo mas só se houver esse talento essa vocação dentro de si. No meu caso foi aos 6 anos de idade. Não houve ninguém a pressionar-me para cantar. Foi uma coisa perfeitamente natural. E tenho ouvido outras histórias do género referentes a outros fadistas.


O que procura na vida?
Eu sinto necessidade de cantar. Quando estou alguns dias sem cantar já não me sinto bem. Preciso de cantar. De ouvir cantar. O que busco constantemente são novas formas de me exprimir. De me dar aos outros através do fado. É esse o meu objectivo. É desta forma que me realizo.


Não canta outras músicas?
Raramente. Participei num programa há pouco tempo em que cantei música brasileira e uma música em francês do Jacques Brel (Ne me quitte pas). Adorei cantar, principalmente o Ne me quitte pas, que é uma música fantástica, mas quando canto fado é que me sinto realizada. Nessa altura sinto algo mágico.


A sua beleza física é uma ajuda ou exige-lhe um esforço suplementar para conseguir provar que é muito mais que uma mulher bonita?
Não costumo pensar nisso. Ajo naturalmente. Canto fado e procuro cantar cada vez melhor. O resto não me preocupa. Apenas penso na forma como transmito o que faço aos outros. Não tenho que provar mais nada pelo facto de ser bonita.


Quando canta consegue abstrair-se de tudo o resto? Acontece-lhe deixar-se levar a mundos diferentes através das canções, abandonando momentaneamente o palco?
Quando estou a cantar há alturas em que entro por completo no mundo interior das músicas. Depende de cada uma delas. Dos sentimentos que transmitem. Há músicas intensas em que me abandono por completo. Em que me entrego. Há outras mais alegres em que gosto de estar com o público. Num palco estamos mais distantes do público do que numa casa de fados, por exemplo mas isso não impede momentos de partilha total entre artistas e público. Momentos em que nós nos damos e em que o público também se entrega por completo. E o fado quando é fado é um intercâmbio de almas. Quando isso acontece é fantástico.


Já lhe aconteceu emocionar-se em palco?
Acontece-me com alguma frequência. A intensidade por vezes é grande. Há um enorme desgaste emocional em determinadas alturas. Os meus espectáculos são agora mais intensos porque estou a evoluir e eu sinto que me entrego cada vez mais. Isso é bom. É desgastante mas é bom. É um sinal de maturidade e é compensador.


Começou a cantar muito cedo. Tem agora 24 anos e já fala em maturidade. Cresceu muito em pouco tempo?
Cresci no tempo certo. Foi um crescimento e um amadurecimento que considero normais. Mas na realidade há alturas em que sinto ter mais idade.


Tem tido muitos convites para cantar no estrangeiro. E não são os tradicionais espectáculos para emigrantes. Como interpreta isso?
É verdade. Tenho tido muitas solicitações. Por todo o mundo há pessoas completamente apaixonadas pelo fado. Há um grande interesse. Há uma grande curiosidade. A globalização acaba por nos obrigar a todos a dar mais atenção ao que é único. Àquilo que transmite a identidade de um povo. E o fado faz parte da nossa identidade. É um dos nossos sinais distintivos num mundo cada vez mais igual. Eu própria sinto curiosidade em relação a outras músicas. O ano passado, por exemplo, estive na Noruega num festival que reuniu mais de duzentos músicos de todo o Mundo. Isso enriquece-nos interiormente e culturalmente.


Qual é a sua relação com os estúdios de gravação?
O fado ao vivo ganha muito. O fado vive muito do momento. Da improvisação. Do ambiente que se cria. Há sempre uma partilha diferente. No estúdio estamos nós, o técnico, o produtor. Tentamos fazer o máximo em termos das nossas almas. Temos que fechar os olhos e procurar viajar até outros mundos mas ao vivo é muito mais fácil. Mais rico. Mais intenso.


Acabou o fado no masculino? Os homens que cantam o fado não têm tanta atenção dos meios de comunicação, dos programadores das salas de espectáculo, dos estúdios. A que atribui isso?
O facto de haver menos homens a cantar fado pode ter a ver com a imagem. Acho que os promotores de espectáculos não pensam apenas nas vozes porque há vozes masculinas fantásticas no mundo do fado. Acho que apostam também na beleza feminina e em tudo o que lhe está associado – vestidos, maquilhagem, etc - como forma de atrair público às salas. Devem considerar que um espectáculo com uma mulher se torna mais apelativo, não sei. Já me aconteceu falar com estrangeiros que estão convencidos que o fado só é cantado por mulheres.


Tem alguém que lhe desenha os vestidos para os espectáculos?
Tenho alguns contactos esporádicos com pessoas que trabalham no mundo da moda mas muitas vezes sou eu própria que tenho ideias para certos vestidos.


O seu guarda-roupa extra-profissional, digamos assim, é grande?
Sim, tenho um razoável guarda-roupa. Gosto muito. Tenho algum cuidado com a forma como me apresento. É algo natural.


O que aconteceu ao seu curso de antropologia? Ficou congelado?
Ficou congelado e não sei se o vou conseguir descongelar alguma vez. A minha actividade profissional tem vindo a aumentar e é impossível continuar os estudos. Ainda tentei conciliar as duas coisas mas tive que desistir. Não conseguia acompanhar as aulas, havia espectáculos que coincidiam com exames. Como gosto de fazer as coisas com pés e cabeça, pus o curso de lado. Todos temos que fazer opções e isso também aconteceu comigo.


Qual é a sua actual relação com Santarém?
Não tenho muito tempo para vir a Santarém mas Santarém tem um lugar especialíssimo no meu coração. É a terra onde nasci e onde cresci. Onde fui e sou feliz. Não há medida para descrever o que sinto por Santarém.


Para além do Fado Joana também vai ter um Fado Santarém?
Não sei se vou ter um Fado Santarém mas concerteza que algum dia hei-de compor algo inspirado neste meu universo. Santarém, o Ribatejo…

Entrevista de Alberto Bastos


Semanário O Mirante, 21/02/2007

Portugal no Coração, Sempre (e também esta tarde)!


Esta tarde iremos participar, mais uma vez, no Portugal no Coração!
Será um grande prazer «passar a tarde» convosco levando connosco mais alguns fados ao vivo do nosso À Flor da Pele!
Até logo!

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

À FLOR DA PELE EM LONDRES E JERSEY


Está já muito próxima a nossa próxima viagem, que levará, como sempre, na bagagem tristezas e alegrias À Flor da Pele, a duas cidades britânicas, nos dias 23 e 24 de Fevereiro.
O primeiro momento será vivido na lindíssima Royal Opera House, em Covent Garden, Londres, no Linbury Studio Theatre, às 20h, neste novo espaço do edifício para concertos, que irá acolher o ciclo de três concertos Voices Across the World, nos dias 23( o nosso concerto), 24, com a cantora Mitsoura e 25, com os Bellowheads. Este ciclo acontece pelo segundo ano consecutivo e pretende apresentar um trio de concertos distantes, quer pela geografia quer pela musicalidade, que representem três tradições musicais com um «toque» contemporâneo.
No dia seguinte, também pelas 20h, iremos estar pela primeira vez no Jersey Arts Centre, nas Channel Islands.
Fotografia: Royal Opera House
Para obter mais informações:

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Essência na Sic Mulher



O Programa da Sic Mulher, «Essência», apresentado por Ana Marques, transmitido em directo das 18,30 às 20h, tem hoje o mote Novos Fados,Novos Fadistas!

Comigo marcarão presença outros amigos, o Ricardo Ribeiro, a Raquel Tavares e a Carminho, para, neste final de tarde, falarmos sobre a nova geração a que pertencemos, as nossas crenças, convicções, experiências e a forma como nos entregamos a esta mística expressão musical, uma das «essências» da alma portuguesa, que é o Fado! E uma das «essências» nas nossas próprias vidas!

ESSÊNCIA

Em directo, de segunda à sexta-feira, das 18h30 às 20h00, Ana Marques explora os universos do quotidiano. A actualidade, as questões e as sensibilidades da vida moderna têm lugar reservado neste talk-show que pretende informar, esclarecer e entreter.


O tema central de conversa é intercalado com rubricas que aconselham e apresentam dicas para o dia-a-dia: psicologia, saúde e beleza, dinheiro e trabalho, consulta jurídica, decoração e lazer, são apenas alguns exemplos.


Os perfis de personalidades femininas e masculinas com percursos de vida marcantes fazem também parte do programa.


“Essência” conta ainda com a voz activa do telespectador através dos telefonemas em directo ou de e.mails enviados para o programa.


“Essência” é um programa prático, útil e essencial para a todas as Mulheres... e também para os Homens!

Até logo!

terça-feira, janeiro 30, 2007

TSF Rádio


Já se encontra disponível no site da TSF o programa «Pessoal e Tranmissível», de Carlos Vaz Marques.


Poderão ouvir no link escrito abaixo:


segunda-feira, janeiro 29, 2007

Hoje, no «Pessoal e Transmissível» da TSF



Daqui a pouco mais de uma hora será transmitido o programa «Pessoal e Transmissível», da TSF, numa conversa com o jornalista Carlos Vaz Marques. A meu lado, e como sempre, estarão o Pedro Amendoeira, o Pedro Pinhal e o Paulo Paz, que também conversarão um pouco connosco e não só... Neste final de tarde fria de Inverno também há espaço nas ondas da Rádio para o calor do Fado... Até já!

terça-feira, janeiro 16, 2007

Entrevista no You Tube



Durante a nossa primeira digressão na Suécia (que teve lugar em catorze cidades, entre meados de Abril e os princípios de Maio de 2006) passámos pela cidade de Borlange, onde encontrámos uma Casa de Cultura sui generis, uma vez que actuámos num espaço que anteriormente tinha sido uma fábrica, hoje em dia adaptado numa Sala de concertos, WasaBryggeriet.
Foi um dos mais intensos concertos daquela viagem, completamente acústico, em que o Silêncio, o Respeito, o Interesse e a Curiosidade daqueles que raramente, ou mesmo nunca, ouviram esta expressão musical, mas também a Saudade da dúzia de portugueses que quiseram marcar a sua presença, no dia da Liberdade (o concerto foi mesmo a 25 de Abril) davam uma «côr» ainda mais especial à noite, com sentimentos vibrantes à flor da pele!
Foi lá que encontrei e pude conversar com Shakeb Isaar, um jovem jornalista, residente naquela cidade que colabora com uma televisão local. Um excerto desta conversa e de música (num vídeo complementado com algumas fotografias que se encontram no site www.joanaamendoeira.com) está disponível no site You Tube, no seguinte endereço:


http://www.youtube.com/watch?v=rUJHVUU0P_c .


Fotografia retirada do vídeo do YouTube

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Lions de Santiago








O mote da noite de Sexta-Feira, dia 12, na Discoteca Alexander's, em Santiago do Cacém, foi o de solidariedade! E o objectivo foi conseguido com uma casa cheia de pessoas unidas para a angariação de fundos para a construção do Lar de Idosos de Vila Nova de Santo André, neste evento promovido pelo Lions Club de Santiago do Cacém! Apesar do frio que se sentia no Alentejo, o ambiente na sala fazia prever que havia muito calor humano para dar ao Fado! E que calor! Muito obrigada a todos mais uma vez pela vossa presença, por serem solidários e por serem tão fadistas, porque tanto é fadista quem canta e quem toca como quem escuta!

domingo, janeiro 14, 2007

Entrevista a «O Primeiro de Janeiro»


Numa das nossas passagens pelo Porto tive a oportunidade de conversar com o jornalista Rui Almeida, do Jornal «O Primeiro de Janeiro». A 18 de Dezembro foi publicada esta nossa conversa que se encontra aqui transcrita.


O recente trabalho de Joana Amendoeira, «À flor da pele», junta fados tradicionais a poemas de autores contemporâneos

“Cantar a mensagem de hoje”


Joana Amendoeira descobriu o fado aos seis anos, e nunca mais parou. Com cinco discos gravados, a fadista continua fiel a uma linha mais tradicional do fado sem, no entanto, esquecer os jovens poetas. Em entrevista ao JANEIRO, a cantora falou do seu novo disco e manifestou a sua crença no futuro do fado.

«À flor da pele» apresenta maioritariamente composições dos músicos que a acompanham. Isto reflecte a vontade de criar uma linha musical homogénea?
Sim. E aconteceu de uma forma muito natural. Ao longo dos últimos dois anos, começaram a surgir estas músicas novas. Apesar de ser bastante tradicionalista e gostar de preservar músicas muito antigas, acredito que é possível apresentar músicas novas com uma matriz tradicional.

Rui Vieira Nery afirmou, a propósito do seu primeiro disco, que a sua intenção não era “fazer uma revolução”...Mesmo este disco, apesar das músicas novas, não foi feito com o intuito de originar uma revolução. Apesar de gostar muito de preservar o fado tradicional, é importante trazer novas melodias. Aliás, isso é algo que tem sido feito desde sempre, caso contrário o fado não teria evoluído. Não é uma revolução, é uma continuidade.O fado despertou na minha vida aos seis anos, e sempre ouvi os fadistas mais velhos. Depois, comecei a comprar livros, a investigar sobre a história do fado. Assim, esta paixão prende-se muito a esse lado tradicional.

No entanto, «À flor da pele» junta fados tradicionais a poemas de vários escritores. É uma forma de se afastar desse lado mais tradicional?
É possível ser-se tradicional mesmo cantando estes poetas jovens. O poema do José Luís Peixoto surge com uma música tradicional bastante antiga, mas com um arranjo novo. É difícil explicar este lado tradicional. Está na essência daquilo que nós, todos aqueles que construímos este disco, sentimos. Esse lado tradicional sente-se através da forma intensa como vivemos o fado e que é, simultaneamente, muito simples. Cantamos numa casa de fados e, por isso, estamos próximos deste ambiente mais tradicional.

Contudo, as afinidades musicais do José Luís Peixoto são bastante diferentes do fado...O José Luís já teve algumas participações com a Naifa, um projecto que espelha uma vertente de fusão com o fado. De certa forma, ele também está a descobrir a escrita para o fado. E foi muito importante ver que é possível fazer estas propostas e que os poetas têm vontade de escrever para o fado. A Amália cantou poetas contemporâneos da sua época de ouro. Agora também é possível recuperar isso, com os poetas de hoje. É importante cantar a mensagem de hoje.

A partir de 2000 iniciou uma colaboração regular com o Clube do Fado, umas das mais prestigiadas casas de fado de Lisboa, onde faz parte do elenco. São os sítios de excelência para cantar fado?Num palco, seja ele de um teatro ou de um auditório, ou até mesmo ao ar livre, é possível acontecer o fado, porque existe uma comunicação muito forte com o público. No entanto, no ambiente muito intimista de uma casa de fados, em que quase sentimos a respiração das pessoas, o olhar, a emoção passa muito mais rapidamente. A magia do fado acontece em pleno. Cada noite é uma noite diferente. Gosto muito de cantar numa casa de fados. É uma forma de expressão da qual não prescindo, apesar de estar cada vez mais a cantar em vários palcos, em diferentes países, gosto sempre de manter a minha freqüência numa casa de fados. Sempre que é possível, lá estou [risos].

No entanto, o lançamento de «À flor da pele» foi feito na Fnac do Chiado. É uma cedência a razões comerciais?É muito importante dar a conhecer esta música a cada vez mais pessoas, e a um público mais jovem, que muitas vezes está presente nesses locais, o que traz muitas vantagens. Cada vez mais os jovens estão a aderir ao fado, e até a cantar e a aprender a tocar, por exemplo, guitarra portuguesa.

Nesse sentido, considera que se vive uma espécie de “moda” do fado?Espero que não seja uma moda. Apesar de porventura existirem alguns projectos que possam ter enveredado por este caminho pelo facto de o fado estar a ser muito falado, este interesse crescente começou há cerca de dez anos atrás. Com o Paulo Bragança, o Camané… mas tem vindo a solidificar-se cada vez mais, com o surgimento de novos valores. Por isso, penso que não vai ser uma moda. Caso contrário, acabaria, e penso que isso não irá acontecer. O tempo será o verdadeiro juiz, quem permanecer não será por causa da moda.

Sente-se parte da chamada “nova geração do fado”?Embora seja jovem, já canto regularmente há 13 anos. E com certeza que sou parte da nova geração do fado. É difícil caracterizar esta nova geração, existem estilos muito diferentes, até porque cada fadista deve procurar um estilo próprio em vez de copiar alguém. Mas penso que temos uma geração de ouro no fado neste momento. E não falo por mim [risos].

A Joana Amendoeira participou, em 1994, pela primeira vez, na Grande Noite do Fado de Lisboa. No ano seguinte, ganhou o primeiro prémio de interpretação feminina, no mesmo concurso, no Porto. Que importância é que esse prémio teve no futuro da sua carreira?Nessa altura tinha 12 anos e, portanto, não estava propriamente consciente da sua importância. Mas foi um grande incentivo, fez-me sonhar e apaixonar cada vez mais por cantar, e por querer aprender e evoluir. Foi muito bom receber esse prémio.

Sendo o fado uma música que aborda sentimentos como o amor ou a saudade, não é pouco propícia a ser cantada por uma criança de 12 anos?Quando tinha 12 anos interpretava consoante a minha vivência. Sempre me aconselharam a cantar palavras que pudesse sentir de alguma forma, e não cantar fados como «Povo que lavas no rio» ou «Ai quem me dera ter outra vez vinte anos» [risos]. Sempre tive pessoas que me aconselharam, não só os meus pais, mas vários fadistas com quem me relacionei. E continuo a defender essa ideia, ou seja, que se deve cantar aquilo que se sente. As palavras que se passam às pessoas têm de ser muito verdadeiras dentro de nós. Apesar de não termos vivido histórias tristes como aquelas que cantamos, podemos imagina-las.Aos 12 anos pensava mais nas melodias do que nas palavras. À medida que fui crescendo, fui interiorizando muito mais e comecei a reparar muito mais nos poemas, e na forma como se dizem as palavras. No fado a mensagem é muito importante, e isso passa também pela maneira como dizemos os poemas. Foi, sobretudo, a partir do terceiro disco que notei mais essa maturidade no relacionamento com as palavras. Os primeiros ainda foram discos da adolescência.

Em 2004 recebeu o prémio revelação da Casa da Imprensa. Ao fim de cinco discos e muitos concertos, ainda se sente uma revelação?Há sempre pessoas que não nos conhecem e para as quais posso ser uma revelação.

E em termos de maturidade musical?Sinto que está a desenvolver-se cada vez mais. Não comecei a cantar há dois ou três anos, e isso cria alicerces na forma como se vê, se sente e se canta o fado. Apesar de ser bastante jovem, não me sinto bem com 24 anos. Talvez porque tenho sido sempre um pouco precoce [risos]. Talvez seja esta a minha forma de estar na vida.

Já realizou vários concertos em diversos locais do mundo. Qual é a reacção do público estrangeiro ao fado?Tem sido sempre extremamente calorosa, apesar de as pessoas, muitas vezes, não entenderem as palavras, embora faça um esforço por tentar explicar do que trata cada um dos fados. Na Suécia, por exemplo, este ano já estive duas vezes com a diferença de seis meses. E desde há dois anos estão a descobrir e a apaixonar-se pelo fado.

E que razões contribuem para que essa “paixão” sobreviva às diferenças linguísticas?É uma forma de expressão muito intensa. Obviamente que o amor ou a saudade são sentimentos que estão presentes em todo o mundo. A forma como nos expressamos, a sonoridade da guitarra portuguesa, fá-los apaixonarem-se e recordarem histórias das suas próprias vidas em culturas muito diferentes da nossa.E já soube de várias pessoas que aprenderam a falar português para ouvir fado.

Essa receptividade do público estrangeiro em relação ao fado relaciona-se de alguma forma com a difusão da chamada World Music?As pessoas estão cada vez mais a sentir a necessidade de não se deixarem globalizar, de conhecerem as tradições, seja do flamenco, do tango ou do fado. Isso obviamente tem sido muito importante para a divulgação do fado. Mas mesmo à parte dos festivais de World Music, a programação de muitas salas contempla cada vez mais o fado.O fado começa, agora, a passar para outros circuitos que não os da World Music, o que traduz o seu interesse crescente. Mas, de facto, começou pela World Music.

Na música «Sem querer» podemos ouvir: “Abandonei a tristeza/ Sem perceber que a beleza/ da alegria também chora”. Este excerto pode ser uma metáfora para a ideia de fado?Exactamente. Aliás, o Hélder Moutinho, que é de uma família de fadistas como o Camané ou o Pedro Moutinho, conseguiu explicitar a própria essência do fado nesse poema.

E a alegria também chora?Sim. Podemo-nos emocionar quando estamos alegres.

Brincando um pouco com outro dos fados que interpreta no seu mais recente disco, que flor gostaria que plantassem à varanda para lhe oferecer?Uma rosa.

E o que é que a Joana Amendoeira tem à flor da pele?Muitos sentimentos. Tenho a alma de fadista, o amor, a saudade, a vida. Pode-se resumir tudo a isso, à vida. O fado é isso mesmo.

Perfil: Joana Amendoeira nasceu em Santarém a 30 de Setembro de 1982. No entanto, desenganem-se os que pensam que estamos na presença de uma principiante. A fadista já gravou cinco discos e conta no seu curriculum com vários concertos realizados nos quatro cantos do mundo, onde se destaca a sua digressão de 23 dias no Japão. Depois do lançamento do álbum «Joana Amendoeira – Ao vivo em Lisboa», a fadista apresenta «À flor da pele», onde associa um ambiente marcadamente tradicional às palavras de jovens poetas portugueses. Com apenas 12 anos venceu o primeiro prémio de interpretação feminina na Grande Noite do fado, no Porto. O público português tem agora, novamente, a possibilidade de se deixar seduzir pela voz de Joana Amendoeira, e pelo seu olhar intenso.

domingo, janeiro 07, 2007

Espírito Solidário


Começado o novo ano de 2007, é importante manter, não só na quadra em que nos encontramos mas sim ao longo de todo o ano, um espírito solidário e, por isso mesmo, na próxima Sexta-Feira, dia 12 de Janeiro, rumaremos um pouco para Sul para um concerto que terá lugar na Discoteca Alexander's, em Santago do Cacém, pelas 22:30. Numa organização do Lions Clube de Santiago do Cacém, o objectivo do evento é a angariação de fundos para ajuda na construção de um Lar de Idosos, em Vila Nova de Santo André.

O Lions Clube de Santiago de Cacém é uma Instituição de Utilidade Pública, atenta às dificuldades e carências da sociedade, particularmente empenhada na ajuda aos mais necessitados.

«A nossa intervenção passa, basicamente, pela identificação dos casos críticos e busca de soluções que visam eliminar ou minimizar os problemas e os riscos identificados, através de promoção de eventos que galvanizem a sociedade em torno da nossa vontade de ajudar o próximo.”

SEJAM SOLIDÁRIOS!
FELIZ ANO NOVO!